29 de setembro 2017

A Cidade do Futuro

por Sarah Kubitschek, arquiteta e gerente de conteúdo no GUAJA

“Pode parecer estranho para você, mas faz todo o sentido para nós nesta cidade. Tudo o que você considerou um produto, tornou-se um serviço. Um por um, todas as coisas se tornaram livres, o que fez a posse perder sentido. Em nossa cidade, não pagamos aluguel, porque sempre existe alguém para utilizar nosso espaço livre quando não estamos o ocupando. Minha sala de estar por exemplo é usada para reuniões de negócios quando eu não estou lá.” — Welcome to 2030, Ida Auken

Depois de décadas de valorização do carro, do luxo e da vida em condomínios fechados, hoje já buscamos novas experiências que têm levado a uma relação diferente com a cidade. O futuro é, sem dúvidas, compartilhado, e as formas e escolhas que desenham o território urbano dia após dia tem forte influência no nosso cotidiano e relações dos 120 anos futuros.

As próximas gerações de belo-horizontinos estarão espalhadas pelo mundo e a nossa cidade será habitada por gente de lugares diversos, em dinâmica constante. Os nômades mineiros, inevitavelmente, vão voltar vez ou outra pra matar saudade das comidas das tataravós. Essas, por sua vez, estarão sendo cuidadosamente cultivadas por produções gastronômicas locais – porque as avós, no caso nós, também entraremos pra dinâmica global. As receitas até serão reproduzidas em foodtrucks mundo afora, mas a atmosfera mineira só existe aqui. É que no futuro abriremos mão da posse em detrimento da experiência, e a experiência mineira só pode ser vivida em sua essência em Minas. Nesse sentido, a cidade será vivida, pensada e produzida por influências de uma troca constante conhecimentos. Saberes dos belo-horizontinos que vão e voltam, e os que chegam pela primeira vez vindo de outros lugares, mas querem contribuir – porque nacionalidade, local de nascimento, língua ou religião não serão mais as únicas definições do nosso senso de pertencimento a um lugar ou comunidade.

O trabalho será mais prazeroso e vai se dividir de duas formas. A primeira é a do trabalho digital, que poderá será realizado de qualquer lugar do planeta — o que significa que você pode escolher seus lugares favoritos para trabalhar. A segunda é a criação de experiências extremamente sensíveis e bem elaboradas por pessoas que precisam ter empatia, quase paixão por esses momentos de doação ao outro.

Certamente seremos incentivados a rever nossa geração de lixo e consequentemente nossa relação com o consumo e desperdício. Não é exatamente que seremos totalmente substituídos pela máquina e passaremos de homo-faber a homo-ludens. Na verdade, vamos mudar nossa relação com a fabricação e produção, que serão dinâmicas mais bem dimensionadas e respeitadas.

Os empreendimentos entrarão para uma nova lógica de produção — a do reaproveitamento, fim do desperdicio. Toda a tecnologia será direcionada para as áreas que ainda vivem sem infraestrutura, recuperação de corpos hídricos e áreas verdes. Os movimentos de ocupação dos edifícios vazios no centro vão perpetuar até a vacância imobiliária ser totalmente preenchida pelo déficit habitacional. As propriedades finalmente

cumprirão sua função social e isso terá forte influência na mobilidade urbana e possibilidades de deslocamento. As ruas das cidades finalmente farão parte do nosso cotidiano, lugares de ócio, lazer e encontro com o outro.

Essas utopias, por sua vez, só deixarão de ser irrealizáveis quando deixarem de ser excludentes. Nessa perspectiva, presenciamos a crescente emergência de movimentos culturais da sociedade civil tem evoluído e redefinido o conceito de cidadania, e insistido e trabalhado em ampliar as conversas sobre o modo de produção das cidades. Discutem o complexo de culturas híbridas e a diversidade de visões de mundo, e têm intervido nos processos políticos e agendas municipais, encontrando novas maneiras de organização política e social. A ideia são cidades compostas e feitas por cidadãos e habitantes, mais culturalmente, socialmente e economicamente diversas.

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